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O descolamento posterior do vítreo normal

acontece quando a liquefacção do gel vítreo

se desenvolve concomitantemente com uma

deiscência completa ao nível da interface ví-

treo-retiniana levando à separação completa

e “limpa” do vítreo da superfície da retina.

Quando a separação do vítreo da superfície

da retina não for total, então estaremos na

presença de um descolamento posterior do

vítreo anómalo

1

. Este pode ser dividido em

dois grandes grupos conforme o local onde

se dá o plano de clivagem. Se este ocorrer

ao nível da interface entre a hialoide posterior

e a retina, então o DPV anómalo poderá estar

associado a adesões vítreo-retinianas focais,

que podem ser posteriores ou periféricas. As

posteriores podem exercer tracção na mácu-

la ou na papila enquanto as periféricas po-

dem levar ao aparecimento de rasgaduras na

retina. Quando o plano de clivagem ocorre na

espessura do vítreo, e não entre a interface

vítreo-retiniana, não ocorre uma separação

real entre o vítreo e a retina, ficando uma fina

camada de vítreo sobre a superfície retiniana.

Nestes casos, estamos na presença de uma

vitreoesquisis. Esta esquisis pode ser um fac-

tor predisponente para o aparecimento de

algumas patologias da interface vítreo-retinia-

na como as membranas epirretinianas ou os

buracos maculares

2,3,4

.

Seguidamente, fazemos uma breve descrição

das principais patologias que podem surgir

após um DPV anómalo:

Rasgaduras retinianas – estudos em autópsias

sugerem que um DPV possa estar associado

ao aparecimento de rasgaduras na retina em

14.3 % dos casos. Na presença de hemovítreo

associado o risco de existir uma rasgadura au-

menta para 67 %.

Síndrome de tracção vítreo-macular – ocorre

quando há um DPV periférico, mas se man-

tém a adesão central na mácula. Pode estar

associado à alteração da visão, quer em quan-

tidade quer em qualidade. Alguns estudos pa-

recem sugerir que a persistência da adesão

vítreo-macular pode ser um factor na génese

ou no agravamento de algumas patologias fre-

quentes como a DMI neovascular ou o edema

macular, seja diabético ou associado a outras

patologias vasculares da retina

5

.

Vitreoesquisis – estudos em cadáveres sugerem

que mesmo após um aparente DPV completo,

remanescentes do vítreo podem ser encontrados

na superfície da retina em cerca de 44 % dos ca-

sos. Por vezes estes remanescentes formam uma

camada contínua de vítreo sobre a superfície da

retina, especialmente no polo posterior. Nestes

casos, estamos na presença de uma vitreoesqui-

sis. Quando a espessura for suficiente, esta ca-

mada de vítreo pode ser detectada por ecografia.

Estudos apontam para uma prevalência de esqui-

sis do vítreo em pelo menos 20 % dos casos de

retinopatia diabética proliferativa, podendo chegar

a 50 % nos casos de membrana epirretiniana ou

buraco macular.

Capítulo 4.

Quais podem ser as consequências de um

descolamento posterior do vítreo anómalo?

Nuno Gomes, Keissy Sousa